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Perfil

 

O Paisagismo de Annamaria Cavallari

Annamaria CavallariAnnamaria Cavallari é a homenageada desta primeira edição da Revista do Portal ANP. Sua vida dedicada a embelezar com plantas o mundo das pessoas deixou conquistas pioneiras no paisagismo brasileiro.
A começar pela própria criação da Associação Nacional de Paisagismo, que presidiu por 04 anos. Embora seus jardins expressem melhor que as palavras sua personalidade, ousamos recorrer a elas para contar um pouco de sua trajetória.

As pedras que servem de referência nas trilhas dentro da mata são chamadas pelos mateiros e caiçaras de pedras de rumo. Elas marcam o caminho e sinalizam o rumo para os caminhantes. A mesma relação podemos fazer com a vida de Annamaria Cavallari. Como uma pedra de rumo, sua vida cheia de paixão pela natureza serve de inspiração para os profissionais do paisagismo brasileiro. O cuidado, o pioneirismo e a sensibilidade com que criava e implementava seus projetos fizeram dela uma ecologista quando ainda não se falava essa palavra por aqui.

Mesmo hoje Annamaria continua sendo vanguarda, pois o que ela praticava é o que agora se chama de Ecologia Profunda - ciência que interrelaciona todos os seres e fenômenos. Observar o entorno, buscar nichos, criar espaços vivos onde nada existia, ver como as coisas se encaixam e como as plantas somam em qualquer ambiente, alcançar beleza estética sem ferir o equilíbrio natural. Essa era a motivação de sua vida.

Neta de William Fillinger, arquiteto que projetou o Edifício Martinelli e o Correio de Santos, e filha do engenheiro Victor Carlos Fillinger, Annamaria cresceu cercada de papel manteiga e vegetal. Mesmo reconhecendo as vantagens do computador, na hora de criar era fiel ao lápis e papel. Dizia que precisava tocar o papel e sentir o lápis deslizando. Com a mãe Lourdes freqüentou o ateliê de pintura da Escola de Artes do MAM, na Rua Sete de Abril, sendo assim iniciada na magia das cores. Antes de assumir-se profissionalmente como paisagista, Annamaria preferia ser chamada de jardinista. Só mais tarde reconheceria ter o estofo multidisciplinar que ela julgava indispensável para exercer um verdadeiro paisagismo.

Igualmente apaixonada pelo ser humano e pelas plantas, desistiu de cursar Botânica para fazer Serviço Social na Pontifícia Universidade Católica (PUC), onde se formou em 1967. Mas logo a Mãe Natureza tratou de aproximá-la do reino vegetal para uma missão como assistente social na Prefeitura Municipal de São Paulo. Esse foi seu mais desafiador projeto e consistiu em implantar hortas comunitárias com o aproveitamento de substrato orgânico gerado nas usinas de compostagem da prefeitura.

Isso em 1972!

O chamado do paisagismo crescia em sua alma e assim também cresciam suas filhas Daniela e Camila. Desta vez dividida entre afazeres maternais e a vontade de migrar de profissão, Annamaria freqüentou muitos cursos de paisagismo da época, como o do Viveiro Manequinho Lopes, os treinamentos ministrados pela ABAP, os primeiros cursos da Philips e Lumini sobre iluminação externa. Levando com muita sabedoria uma agenda movimentada, foi também ouvinte na FAU/USP. A biblioteca da faculdade foi passaporte para vôos mais altos, aprendendo sobre as diferentes visões do paisagismo mundial. Nesse momento de sua vida acontecem alguns encontros marcantes. Em busca de mais aprendizado, Annamaria procura Gladys Zanon, grande conhecedora de plantas ornamentais. O amor pela flora brasileira selaria uma eterna amizade.

Lições de doação e convívio

Até onde um amigo era cliente e vice versa eram limites desconhecidos para ela, que aprendia com as plantas a magnitude da doação. Estar presente por inteiro em todo tempo e lugar foi uma das lições tiradas do contato diário com as plantas e importadas para sua rotina com família, colegas, clientes e amigos. Um de seus mais fortes encontros se deu com o grande mestre Roberto Burle Marx. Incentivando-a na criação de projetos, levou-a a pesquisar espécies vegetais e a compreender o quanto é fundamental para o paisagista ter uma formação multidisciplinar. Com ele aprendeu a mergulhar de corpo e alma no estudo de cores, texturas e volumes. Sentiu pronta para confiar na imaginação e perceber a infinidade de formas e caminhos que um jardim pode oferecer. Entendeu que importa pouco o tamanho da empreitada diante da imensidão que nossa visão pode alcançar.

No início dos anos 80 abriu sua empresa Annamaria Jardins SC Ltda. Naquela época a oferta de espécies vegetais era bem menor e menos diversificada que hoje. Isso significava garimpar em viveiros, conhecer os produtores e suas produções. Curiosidade e cura são palavras-irmãs. A cura vai ao encontro de quem tem curiosidade de sair em busca de respostas. Dessa forma ela enxergava de longe a solução que antes parecia um problema. Se havia carência de espécies para ela isso virava uma alegre aventura. Embora ela própria se posicionasse como eterna aprendiz diante da natureza, logo conseguiu formar uma equipe especial de arquitetos, agrônomos e jardineiros. Com esse apoio em terra sentia-se livre para voar e descobrir o esplendor de chapadas, matas e pantanal do Brasil. Também achava crucial sair da terrinha para pesquisar em outros países os projetos paisagísticos em implantação. Perseguir o equilíbrio entre a paisagem natural e a paisagem projetada acabaria se tornando um dos traços mais característicos de suas criações.

Crescendo em uma família de transformadores da sociedade, Annamaria aprendeu cedo a fazer as escolhas que faziam sentido para ela. Fazia sentido, por exemplo, investir tempo e energia em atitudes associativas na promoção de eventos como os primeiros congressos da FiaFlora ExpoGarden. Sempre foi filiada próxima e amiga dos fundadores da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (ABAP ) e esteve na linha de frente da fundação da ANP – Associação Nacional de Paisagismo.

Presidiu a ANP em duas gestões – de 2000 a 2003, quando lutou pela regulamentação da profissão. De 2004 a 2007, na gestão de Celso Bergamasco, Annamaria atuou como diretora da ANP trabalhando intensamente para criar o Portal da ANP, que foi lançado em evento no Museu da Casa Brasileira em 22 de Setembro de 2005, e na restauração do Jardim do Museu da Casa Brasileira (MCB), iniciada em julho de 2006.. No início de 2007 ela assumiria com sucesso um novo desafio: a criação do IMAB - Instituto Mais Árvore no Brasil, no qual colaborou como Diretora Técnica.

Jardins sustentáveis

Usando palavras da moda podemos afirmar que Annamaria criava jardins sustentáveis. Ela sabia que apesar do essencial ser invisível aos olhos, uma conexão é possível através de um belo jardim. Um jardim que toca a alma e faz bater mais forte o coração que sabe apreciar. Uma boa amizade com as plantas pode decifrar os mistérios dessa magia. Nessa seara Annamaria foi mestra. Ou pedra de rumo, para quem tem a ousadia de querer trilhar esse caminho.
A partir de 24 de agosto de 2008 tivemos que assumir o grande desafio de seguir a caminhada sem a importante presença de Annamaria. Ficam conosco seus belos jardins, que muito bem falam por ela e desafiam o tempo para perpetuar sua marcante passagem.

 

 


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Imagens selecionadas e cedidas pelos familiares de Annamaria Cavalari.